segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Série 3% - Primeira temporada

Tem alguns spoilers

 Primeira serie brasileira da Netflix
Criador:
Pedro Aguilera
Diretores:
César Charlone, Daina Giannecchini,
Dani Libardi, Jotagá Crema
Produção:
César Charlone e Tiago Mello
Produtora:
Boutique filmes
Elenco:
Bianca Comparato, João Miguel, Michel Gomes, Vaneza Oliveira, Zezé Motta, Rodolfo Valente,Viviane Porto, Mel Fronckowiak entre outros
*A série também ganhou a primeira etapa de um edital do Ministério da Cultura(MinC), por meio do Programa FICTV/Mais Cultura, que selecionou, oito projetos de minisséries de TV sobre a juventude brasileira. Cada projeto recebeu o valor de R$ 250 mil para desenvolver a minissérie proposta, incluindo a produção do episódio piloto.

Confesso que quase não assisti a série porque tinha lido várias resenhas que apontavam muitos defeitos. Mas alguns amigos e conhecidos disseram para dar uma chance e, olha, assisti, e sinto a necessidade de defendê-la. Divididos em oito capítulos, a primeira temporada mostra que a série não é somente ficção cientifica com situações irreais. Sem apelo sexual e violência gratuita, 3% mostra outra fase de produções brasileiras. É uma produção de baixo orçamento, portanto o figurino e locações (na verdade a série se passa quase toda num prédio) pode não ser  suprir expectativas.

Sinopse Netflix: 
3% se passa num mundo pós-apocalíptico, depois de diversas crises que deixaram o planeta devastado. Num lugar não especificado do Brasil, a maior parte da população sobrevivente mora no Continente, um lugar miserável, decadente, onde falta tudo: água, comida, energia. Aos 20 anos de idade, todo cidadão tem direito de participar do Processo, uma seleção que oferece a única chance de passar para o MarAlto, onde tudo é abundante e há oportunidades de uma vida digna. Mas somente 3% dos candidatos são aprovados no Processo, que testa os limites dos participantes em provas físicas e psicológicas e os coloca diante de dilemas morais. Morar em MarAlto, no entanto, não é o objetivo de todos os candidatos: alguns têm outros planos.


Crítica:
De um lado existe a pobreza e, dentro da pobreza, a extrema pobreza (é impressionante que, apesar da miséria, ainda existe a divisão de raças), e do outro lado a justiça e igualdade.

Está  em questão o caráter dos entrevistadores e a imparcialidade do processo seletivo que revela características, até então desconhecidas, dos personagens, que em minha opinião são muito bem delineados. Não vemos presença de atores com a imagem muito conhecida e com a interpretação já desgastada. 3% acerta em buscar o novo, rostos diferentes e mais perto da realidade, sem muita caricatura. Alguns personagens são muito clean como Rafael (Rodolfo Valente), mas eu gostei do personagem ele é uma contradição ambulante.

O MarAlto aparentemente é a idealização de um lugar perfeito que depois de passar pelo processo ninguém volta mais para contar. O restante das pessoas vive de histórias e contos mirabolantes e nada mais do que isso. Coisas são omitidas para ninguém desistir de tentar. Só os melhores passam. Será?

Tem uma cena em que um funcionário e envenenado, Joana (Vaneza Oliveira), uma das candidatas, pergunta se com todo o tratamento e tecnologia que eles dizem possuir, altamente avançado, porque não curaram o homem.

Outra parte que achei sensacional foi que Marco (Rafael Lozano) ascende de uma família conhecida por passar no processo seletivo com louvor, ele acredita que por ter sobrenome famoso tem mérito (qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência) desde o início é considerado um líder nato, mas numa menção ao livro “Senhor das moscas”, num dos episódios chamado “O portão”, é criado um ambiente onde não há leis e nem regras, a democracia é inexistente, o que você faria para sobreviver? Bom, o personagem em questão torna-se um assassino.

Michelle (Bianca comparado) ingênua e forte é a protagonista anti-heroína. Bianca é uma atriz flexível, lembro muito dela no filme “Anjos do Sol”. Dentro desse processo seletivo o chefe é Ezequiel (João Miguel), que é muito suspeito, seco, por exemplo, apesar de amar sua esposa não teve capacidade de ajudá-la quando mais precisava.

A abertura é muito boa com essa música de mistério, e na trilha sonora tem a  voz do milênio, eleita pela BBC, Elza Soares. 


Além disso, em pleno século XXI, 2016, ainda fico surpresa com personagens negros em produções audiovisuais brasileiras que são fora desse padrão estereotipado vulgar. As mulheres e os homens negros não é mãe de santo, nem passista, não tem muitos filhos, não usa roupa curta, não é traficante que fala errado, nem burro e nem prostituta. No entanto os personagens  são uma mulher super poderosa, uma das superiores (Zezé Motta como Nair); uma jovem ambiciosa que quer chegar ao topo (Viviane Porto como Aline); um jovem romântico idealizador (Michel Gomes como Fernando) e uma mulher esperta sobrevivente, que não abaixa a cabeça e quem tem muito a ser revelado (Oliveira como Joana). O que é muito natural, pois negros não precisam ter personagens específicos, podem ser qualquer coisa, igualmente como pessoas de raça branca.

Abro um parêntese: A produção da + Add Casting foi acusada de racismo devido a um e-mail, que dizia que queriam ator negro, mas devido ao “grau de dificuldade” fariam testes com atores brancos. E a série fala exatamente de processo seletivo preconceituoso e injusto, paradoxos racistas da vida real.

Outra cena que vale ressaltar, que eu vi alguns questionando, é a da Aline (Porto) sendo acusada de assassinato injustamente, foi tramado para ela ser presa e deixar de ser um encalço para Ezequiel (Miguel). A personagem Aline não chora em nenhum momento, para chorar ela usa um colírio. É tudo naturalizado naquela cena, todos agem com frieza. E pode ter sido proposital, pois durante o processo eles são obrigados a se tornarem algo que talvez não quisessem ser.

E fica a pergunta: o processo seletivo é justo?  O que você faria naquelas situações?  Vale à pena abandonar o que você ama o que você acredita em nome de algo que você não conhece? Vale a pena se arriscar e,m nome do bem maior?

Vamos aguardar as próximas temporadas porque, pelo final da  temporada, tem muita coisa para acontecer. 

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