segunda-feira, 16 de março de 2015

Poesias selecionadas: 14 de março Dia Nacional da Poesia

Em comemoração ao Dia Nacional da Poesia, festejado no dia 14 de março (sábado) selecionei três poemas que são bem legais. Era para ter postado no sábado só que meu laptop resolveu não funcionar daí ficou para hoje mesmo, não podia deixar passar, porque quando se trata de poesias, nunca é tarde.

Quando criança tinha um caderno de poemas onde escrevia as poesias que eu mais gostava e as que eu inventava. Te tanto emprestar, perdi.  E olha que na capa estava escrito: "Emprestar é um prazer, devolver é um dever!". Enfim, tomara que na mão da pessoa que o caderno tenha ido parar, a poesia tenha cantando e colorido ela de amor e sabedoria (curiosidade: a capa do caderno era vermelha igual ao blog).

Atualmente, não transfiro os poemas para o caderno, perdi o hábito, mas guardo todos que gosto na memória e a internet e os livros ajudam nessa tarefa de eterniza-los. Confira abaixo os poemas e um pouco sobre os autores. Divirtam-se e inspirem-se!

Foto: Divulgação

1°: Antônio Frederico de Castro Alves, poeta dos escravos. O dia 14 de março dia da Poesia é  em homenagem a esse poeta do século XIX, da terceira geração do romantismo, que dedicou sua vida a escrita abolicionista. Ele é o autor do texto "O Navio Negreiro". Porém, o poema escolhido foi outro:

A canção do africano 
Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto o braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez, pr'a não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!

"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...

"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".

O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P'ra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
.............................
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!
(1893)

2°: Álvaro de Campos, moderno e pessimista; futurista. Ele vai da euforia ao desencanto. É um dos heterônimos de Fernando Pessoa, vários poetas em um só. Fernando Pessoa é classificado como modernista é o maior poeta do século XX com reconhecimento mundial. 

Lisbon Revisited (1926)
Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim –
Um bocado de ti e de mim!...

3° Cecília Meireles, um grande nome da educação brasileira*, é da  segunda geração do modernismo, suas poesias tem características líricas, por causa da tendência a musicalidade. Devido alguns poemas foi classificada na escola do movimento simbolista. Uma das mulheres que conseguiu reconhecimento na literatura num meio quase exclusivo de homens. Escreveu crônicas, contos e literatura infantil. 

É preciso não esquecer nada
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a ideia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

(1962)

*Descrição retirada do livro: “Cecília Meireles” da Autora Yolanda Lobo da Coleção Educadores organizada pelo Ministério da Educação (MEC) disponibilizado  gratuitamente para download no site Domínio Público. São 62 obras de pesquisadores estrangeiros e brasileiros que contribuíram para a educação e tem grande papel. A coleção é direcionada para os educadores, que conta com uma série de livros com média de 150 páginas cada que conta a história, ensaios sobre o autor, sua trajetória na produção intelectual da área, uma seleção de textos e muito mais. Veja as outras obras aqui

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