quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Cacheadas e crespas: Todo tipo é cabelo bonito - Minha história



"Ô preta!
Que lazeira é essa?

Ô preta!
Levante a cabeça!

Ô preta!
Não se esqueça!
Seu cabelo não é ruim, seu cabelo é uma beleza!"

                                                 (Coco dos pretos)


quase oito meses atrás se me dissessem que eu  iria usar o cabelo cacheado natural eu diria que o dito cujo ou a dita cuja estava ficando louco.

Meu cabelo é cacheado,  nasceu assim e ficou assim até os meus 14 anos. Adolescência,  época difícil. Quando, sem saber cuidar (minha mãe e meus irmãos tem cabelo lisinho e meu pai não sabia cuidar do cabelo dele, que dirá do meu) e sem ter representativas na televisão,  nem na vida real (todo mundo alisava ou cortava baixinho) e nem em bonecas.  Optei por alisar. Na primeira vez, alisei com amônia, meu cabelo foi parar nas costas, acima da bunda. Achei o máximo. Depois, um pouco mais velha, fiz progressivas, escovas inteligentes e relaxamento de raiz.

Já na faculdade, queria mudar e resolvi pintar as pontas. Meu cabelo ficou totalmente danificado. Cortei na altura da orelha. Todo mundo gostou, inclusive eu,  mas meu cabelo estava muito enfraquecido. Seguindo recomendações de um primo, que entende de cabelo,  resolvi não fazer absolutamente NADA, passar nenhuma química no cabelo por pelo menos quatro meses. Passaram-se alguns meses e eu cortava a parte alisada em casa mesmo. Sem querer, passei pela transição  e, apesar de perceber as duas texturas, não liguei porque na minha cabeça, ainda naquele momento, eu voltaria a alisar logo, logo. Ledo engano. Estava eu, com o cabelo todo natural na altura do ombro. Foi um susto, pois já não lembrava mais como era ter o cabelo natural. No entanto, não usava solto, (nem na época da “transição capilar” prendia em VÁRIOS penteados diferentes) demorou um pouco até me libertar completamente da opressão e do preconceito - o meu e o da sociedade.

Quando entrei na faculdade passei a ler mais,  a debater e me tornei mais questionadora. Através de coletivos e fóruns que debatem a cultura negra,  genocídio etc. descobrir o espaço do negro e passei a entender que tudo o que tem relação com negro era (ou ainda é?) visto como ruim. “A Cultura negra é legal, o negro não”.

E a partir de um forte empoderamento e consciência social e identitária, hoje,  saio com cabelos ao vento completamente livre e me sinto mais forte e inteligente,  conhecedora de mim mesma. Orgulhosa e bonita.

Mas digo: É uma luta diária. No meio familiar e profissional em que vivo sou a única cacheada,  pelo menos com cabelo volumoso. Tem outras duas meninas que trabalham comigo e são cacheadas, porém tem o cabelo "baixo", próximo do liso. Ainda ouço:
“O que você fez com seu cabelo?”
“Cabelo cacheado deixa com cara de mal arrumada,  suja.”
“É  lindo nos outros mas em mim acho feio.”
“Você sai assim para todos os lugares?”
“Posso tocar?”

Ressalto que o meu pai tinha cabelo Black Power na juventude, até os anos 80. Sofreu por ser negro,  apesar de sempre se vestir bem,  tocava surdo na escola de samba do Espirito Santo,  simpático, trabalhador e amigo de todos,  cativava até quem não o conhecia. Mais tudo piorou no mundo contemporâneo, o que aconteceu com o mundo depois dessa década, eu não sei. Mas, a opressão retornou tão forte, que para meu pai conseguir um emprego, tinha que cortar o cabelo baixinho e manter assim. Só vi o cabelo do meu pai com black em fotos. Nunca pessoalmente.

Não deixemos que essa onda de feminismo e consciência vá embora. Lutemos diariamente.

Todo tipo de cacho (texturas) é válido. E muitas modelos de propaganda de shampoo, tem seus cabelos cacheados editados no photoshop. Por isso,  escolhi imagens de cabelos cacheados mais próximo dos naturais para vocês verem: 
Jade Kendle

Steffany Borges
               
 O  cabelo da Mechy se aproxima muito da textura do meu
Dana Oliver
Rayza Nicácio
Alba Ramos Garcia


Maraisa Fidelis
Shaneice


Zezé Motta
Summer


Ana Lídia
Maah Julia

Mari Morena
(Todas as fotos são reproduções da internet)

"Deixa eu dá uma ajeitadinha aqui! Pronto, DIVA!"

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